Carlos Heitor Cony: herói da resistência - Entrevista por André Bernardo
28/09/2012
 
Por André Bernardo
 
Carlos Heitor Cony é de uma franqueza desconcertante. Não se deve esperar do autor de O Ventre, O Piano e a Orquestra e Quase Memória – alguns dos mais premiados romances da literatura brasileira – frases feitas ou declarações previsíveis.
 
Quando indagado sobre o que ainda lhe falta para sentir-se realizado, responde que, da vida, só espera a morte. “Bem, mas se quiserem me dar o Nobel, eu aceito!”, sorri, com uma piscadela marota. Ao ser perguntado sobre a Academia Brasileira de Letras, instituição da qual é membro desde 2000, compara a ABL a um “jardim de infância às avessas”. “No jardim de infância, você tem futuro, mas não tem passado. Na ABL, você tem passado, mas seu futuro é incerto. Quando entra lá, o acadêmico já não precisa provar mais nada para ninguém”, justifica.
 
Aos 86 anos, Cony também não precisa provar mais nada a ninguém. Dos 17 romances publicados, garante que só dois tiveram alguma relevância: O Ventre, de 1958, e Pilatos, de 1973. Se pudesse, afirma, teria encerrado ali sua carreira literária.
 
“Levei 22 anos para escrever outro livro de ficção. E só escrevi Quase Memória por pressão do editor. Volta e meia, eles ligam para minha casa, pedindo livros novos”, resmunga. O último que ligou foi Roberto Feith, da Objetiva. Do outro lado da linha, sugeriu a Cony que relançasse Memorial do Exílio, ensaio biográfico de 1982, com novo título, JK e a Ditadura. Na versão revista e atualizada, Cony diz que pôde responder a perguntas que ficaram sem respostas no original. “Tudo o que eu não pude contar em Memorial do Exílio eu conto em JK e a Ditadura”, promete.
 
Embora diga que, da vida, só espera a morte, Cony já tem outros projetos em vista. Lançar um novo livro, Chaplin e Outros Ensaios, é um deles. “No meu primeiro romance, eu já dizia que não queria morrer como negociante falido ou amante renegado. Quero morrer lúcido. Por isso, não paro de trabalhar”, explica Cony, que reúne, na obra, ensaios que escreveu sobre alguns de seus autores prediletos, como Machado de Assis, Lima Barreto e Manuel Antônio de Almeida.
 
Cony, um dos mais importantes nomes da literatura brasileira
 
Apesar de conviver com um câncer linfático crônico desde 2001, Cony ainda apresenta um programa diário na rádio CBN, Liberdade de Expressão, e escreve quatro crônicas semanais para o jornal Folha de S. Paulo. “Sei que não tenho mais nada a escrever. Mas quero continuar escrevendo assim mesmo”, faz graça.
 
A versão original de JK e a Ditadura foi escrita em 1982. Trinta anos depois, o que o encorajou a revisitar Memorial do Exílio?
 
Cony. Memorial do Exílio é o último livro de memórias do Juscelino Kubitschek. Escrevi A Experiência da Humildade, A Escalada Política e 50 anos em 5. E ia escrever o quarto volume, Mil Dias de Exílio, quando ele morreu. Na ocasião, Seu Adolpho Bloch e a viúva do Juscelino, Dona Sarah, pediram que eu escrevesse o último livro, o mais difícil de todos, porque retratava o ocaso, a “noite escura” da vida do Juscelino Kubitschek. Ou seja, sobrou para mim a tarefa de descascar esse abacaxi... (risos) O Mil Dias de Exílio – que depois passou a se chamar Memorial do Exílio – vai do dia 31 de janeiro de 1971, data em que Juscelino Kubitschek passou o governo ao seu sucessor, Jânio Quadros, até o dia 22 de agosto de 1976, data de sua morte. Assim que o livro foi publicado, o pessoal começou a pegar no meu pé: “Mas, e aí, Cony, o acidente de carro que tirou a vida do Juscelino na Via Dutra foi atentado ou não? E a situação com a Dona Sarah? É verdade que, no dia de sua morte, ele parou na estrada para se encontrar com uma amante?”. Sabia perfeitamente que ia receber essas críticas, mas evitei tocar em certos assuntos. No livro, falo do acidente, é claro, mas não entro em detalhes. Tudo o que eu não pude contar lá atrás em Memorial do Exílio eu conto agora em JK e a Ditadura.
 
A propósito, Cony, o acidente de carro que tirou a vida do JK na Via Dutra foi atentado ou não?
 
Cony. No dia 28 de agosto de 1975, ou seja, um ano antes da morte de JK, o coronel Manuel Contreras Sepúlveda, diretor da Inteligência Nacional Chilena (a DINA), enviou um ofício para o general João Batista de Oliveira Figueiredo, então chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI), dizendo que os dois tinham sérios problemas a resolver: Kubitschek e Leterier. Orlando Leterier era chefe de gabinete do presidente Salvador Allende. Ele conseguiu fugir para os EUA, mas morreu em Washington. Uma bomba explodiu o carro dele. O FBI investigou o caso e pediu a extradição do Contreras. Na época, o Pinochet não deu. Anos depois, o Contreras foi preso e continua até hoje. Anos depois, ao depor na Comissão da Câmara dos Deputados, o ex-governador de Pernambuco, Miguel Arraes, que integrava uma rede internacional de informações confidenciais que procuravam garantir a vida de outros exilados políticos, foi categórico ao afirmar que JK tinha sido assassinado. Da Argélia, Miguel Arraes procurava orientar todo mundo. Certa vez, chegou a pedir a João Goulart que não dormisse duas noites no mesmo endereço. No dia em que dormiu, morreu.
 
Entre outros ensaios biográficos, você escreveu Quem matou Vargas e JK Memorial do Exílio. Qual dos dois foi o melhor presidente que o Brasil já teve?
 
Cony. Depende. Em termos de estadista, voto no Getúlio. Em termos de prefeito, Juscelino. O Getúlio pensava política de uma forma ampla, tinha um olhar periférico, era um estadista nato. Juscelino não chegou a ser um estadista. Foi um homem de ação, dinâmico e trabalhador. Na época em que era estudante de Direito em Porto Alegre, Getúlio recebeu o então presidente Epitácio Pessoa na condição de presidente do grêmio estudantil. Já naquela época, disse que o Brasil precisava de um homem que fizesse com que o país não fosse apenas portuário, que recebesse tudo do exterior. Se você pegar a famosa carta-testamento de Getúlio, vai ver que muito do que ele escreveu ali foi dito lá atrás, em 1917, quando ele ainda não passava de um estudante de Direito. É impressionante como 90% do que falou como estudante ele cumpriu como estadista. Ou seja, é um sujeito que tinha um ideal. Até o governo de Getúlio, o trabalhador brasileiro não tinha direito a nada: salário, férias, estabilidade, absolutamente nada. Eu vejo pelo meu pai. Era jornalista, mas não tinha sequer carteira assinada.
 
Capa de 'JK e a Ditadura'
 
Não foram poucos os escritores que, em algum momento de suas vidas, resolveram enveredar pela política. Jorge Amado, Graciliano Ramos e José de Alencar são apenas alguns exemplos. Você nunca pensou em fazer o mesmo?
 
Cony. Em 1966, o Tancredo Neves chegou a me convidar para compor a chapa dos deputados federais do Rio de Janeiro, mas não aceitei. Eu estava em evidência nessa época porque fazia campanha feroz contra o governo militar. Na ocasião, o Tancredo disse que encomendou algumas pesquisas de opinião pública e tinha plena certeza que eu seria o mais votado. Não acredito nisso. Foi quando eu indiquei o nome do Márcio Moreira Alves. E o Márcio acabou eleito. Não sou político. E nunca fui. Curiosamente, nos 17 romances que escrevi, só falo de política uma única vez: em Pessach: a Travessia. Não chega a ser um romance político, mas é um romance deflagrado por um episódio político.   
 
Durante a ditadura, você chegou a ser preso seis vezes. Qual foi o pior momento?
 
Cony. A pior tortura que eu sofri não foi na prisão. Eu tinha duas filhas, de 8 e 12 anos, e as duas foram levadas do colégio por oficiais da Marinha. Eles disseram à professora que eram meus amigos e estavam ali, a pedido meu, porque minhas filhas estavam sendo ameaçadas de sequestro. A professora acreditou neles e liberou as meninas. A diretora, porém, achou estranho aquilo e anotou a placa do carro. Naquele mesmo dia, meu editor, Ênio Silveira, localizou o veículo e tudo terminou bem. Mesmo assim, quando foi jogada para dentro do carro, a minha filha mais velha ouviu um dos homens dizendo que, naquela noite, ela perderia o “cabaço”. À noite, em casa, minha filha perguntou para mim o que significava “cabaço”. Essa foi a pior experiência que tive. Numa das minhas prisões, dividi a cela com o Joel Silveira. Revoltado, evoquei a Convenção de Genebra e o pessoal liberou banho de sol e visita. No início da repressão, fomos relativamente bem-tratados. Na noite de réveillon, os soldados serviram peru, nozes, vinho. A última prisão, em 1972, foi a mais terrível. Não tínhamos direito a nada. Dormíamos no chão. No vaso, não tinha água. Tínhamos que tomar banho na água que escorria de um cano da parede. Foi terrível... No começo do regime militar, os soldados chegavam a demonstrar constrangimento. Mas, de 1968 a 1972, a postura dos militares mudou radicalmente.
 
Ao longo de sua carreira, você já escreveu crônicas para jornal, livros infantojuvenis, roteiros para cinema, sinopses de novela... O que mais ainda falta fazer?
 
Cony. O que me falta? Morrer... (risos)
 
Ok, mas, antes de morrer, você não pretende concluir Messa para o Papa Marcelo, que começou a escrever há 40 anos?
 
Cony. Ah, isso é uma longa história! Eu anunciei Messa para o Papa Marcelo ainda nos anos 50, quando estava no meu terceiro romance. Na época, o livro ainda se chamava Paixão Segundo Mateus. Depois disso, escrevi mais 14 romances e não consegui terminá-lo. Está encruado. Penso que, antes de retomá-lo, tenho que chegar a algumas conclusões sobre vida e morte. Um dia, a Clarice Lispector resolveu me entrevistar e, lá pelas tantas, perguntou o que eu estava escrevendo. Respondi: “Eu tenho um título, mas não tenho um livro”. Ela retrucou: “Eu tenho um romance, mas não tenho um título”. Foi daí que veio o título: Paixão Segundo G.H. O Messa para o Papa Marcelo não é um livro fácil. Minha formação é católica. Cheguei a ingressar no Seminário Arquidiocesano São José, no Rio de Janeiro, em 1937. Mas, quando comecei a estudar Filosofia e Teologia, passei a questionar a ideia de um ser superior. Com o tempo, fui ficando cada vez mais pessimista e empedernido. Hoje, da vida, eu só espero a morte. A morte e o Nobel. Se quiserem me dar o Nobel, eu aceito... (risos)
 
Há 11 anos, você convive com um câncer linfático crônico. De que maneira esse diagnóstico ajudou a torná-lo uma pessoa mais pessimista e empedernida?
 
Cony. Já comecei a fazer quimioterapia e o médico disse que meu câncer está sob controle. A minha expectativa de vida é de 10 anos. Bem, eu tenho 86 anos. E não sei se quero chegar aos 96. No meu primeiro romance, O Ventre, de 1958, eu já dizia que não queria morrer como negociante falido ou amante renegado. Quero morrer lúcido! Por isso, não paro de trabalhar. Até o final do ano, por exemplo, lanço novo livro, Chaplin e Outros Ensaios, pela Editora Topbooks. Nesse livro, reúno ensaios que escrevi sobre Wolfgang Goethe, Guimarães Rosa, Tomás de Aquino, Rachel de Queiroz, Victor Hugo, Machado de Assis, Lima Barreto, Manuel Antônio de Almeida...
 
É verdade que um dos primeiros livros que você leu (e que o marcou profundamente) foi Memórias de Um Sargento de Milícias, do Manuel Antônio de Almeida?
 
Cony. É verdade, sim. Li esse livro quando tinha 11 anos. Ainda não tinha sequer entrado para o seminário. Fiquei fascinado. Me identifiquei muito com tudo aquilo. Gosto da linguagem e da postura do Manuel Antônio diante da vida. Temos muito em comum. Em alguns aspectos, Manuel Antônio inspirou bastante Machado de Assis e Lima Barreto. Dos três, o que mais me influenciou foi o Manuel Antônio. Uma das maiores personagens femininas da literatura brasileira é a Comadre de Memórias de Um Sargento de Milícias. É tão rica e genial quanto a Capitu.
 
Desde 2001, você apresenta o programa Liberdade de Expressão, na rádio CBN. Depois de tanto tempo, fazer um programa de rádio continua sendo uma experiência desafiadora e instigante?
 
Cony. Puxa, já faz 11 anos? Não vi o tempo passar... Bem, programa de rádio não é bem a minha praia... Até comecei a minha vida profissional como redator da rádio Jornal do Brasil, em 1952. Escrevia programas de ópera e música clássica. Dali, fui para o Correio da Manhã, onde exerci as funções de redator, cronista e editor. Mas, voltando ao Liberdade de Expressão, quem sugere a pauta do dia são eles; não somos nós. E nem sempre a pauta coincide com a minha área de interesse. Até digo uma coisinha aqui e outra ali. Mas nem sempre domino o assunto. Por isso mesmo, volta e meia, saio completamente da pauta... (risos) Não me sinto muito à vontade no rádio. Nem no rádio, nem na TV. Minha praia é outra...
 
Mas, na extinta TV Manchete, você chegou a ser diretor de teledramaturgia, certo? Sente saudades?
 
Cony. Sim, da Manchete, muito. Até hoje, eu me lembro do dia em que o juiz mandou lacrar as portas da emissora: 1º de setembro de 2000. Recentemente, fui convidado pelos novos donos a visitar o prédio. Pensei que ficaria triste lá dentro, mas, como mudaram tudo, não senti tanto. Alguns programas da Manchete, como as novelas Pantanal e Kananga do Japão, por exemplo, chegaram a bater a TV Globo em audiência. Escrevi as sinopses de algumas novelas e minisséries, para Marquesa de Santos, Dona Beija e Kananga do Japão. Depois, fiquei doente e tive que sair. Na época, soube pela Glória Perez que o Benedito Ruy Barbosa estava escrevendo uma novela para o horário das seis. Pedi ao Benedito que me enviasse a sinopse. Gostei, mas avisei a ele que aquilo era novela para ser exibida às oito ou às nove. Não é à toa que Pantanal fez o sucesso que fez.
 
O seu livro mais vendido é o infantojuvenil Uma História de Amor, de 1977. Em sua 40ª edição, vendeu mais de 800 mil exemplares. A que você atribui isso?
 
Cony. Em 1965, por questões políticas, tive que pedir demissão do Correio da Manhã. Na época, meu redator-chefe era o saudoso Antônio Callado. Quando ele soube que eu pedi demissão, pediu também. O Callado virou editor da Enciclopédia Barsa, mas eu fiquei desempregado. Ninguém queria me dar emprego. Foi quando comecei a escrever livros infantojuvenis e a adaptar clássicos da literatura universal para a Edições de Ouro. Gosto muito da adaptação que fiz para Moby Dick, do Herman Melville. Outro dia, tive a oportunidade de reler, e ficou realmente muito boa. Nessa época, encomendaram uma história açucarada para o público adolescente. E eu escrevi História de Amor. Só não esperava que fizesse tanto sucesso. Ainda hoje, quando faço palestra pelo país afora, tem gente que vem falar comigo sobre História de Amor...
 
Das obras que escreveu, 'Pilatos' é a preferida do autor


Se você tivesse que escolher um único livro para ser lembrado daqui a 100 anos, qual seria?
 
Cony. Ah, eu escolheria Pilatos, de 1973, sem dúvida nenhuma...
 
Por quê?
 
Cony. É um livro meu. E de mais ninguém. É onde eu mais me reconheço. Outro dia, o Sérgio Machado, dono da Record, perguntou o porquê desse título. Respondi que ele não tinha prestado atenção na epígrafe do Paulo Vanzolini. Um dos versos de Samba Erudito diz: “Então, me curvei ante a força dos fatos, lavei minhas mãos como Pôncio Pilatos”. É a história do homem que lava as mãos e solta um sonoro palavrão para tudo e para todos... Queria lavar as mãos e dar o fora da literatura. Levei 22 anos para escrever outro livro de ficção. E só voltei com Quase Memória, em 1996, por pressão do editor. Volta e meia, os editores pedem livros novos, inéditos. Na ocasião do Romance sem Palavras, o Luiz Schwarz, da Companhia das Letras, pediu um romance inédito para lançar na Bienal. Ele me deu 15 dias para fazer o livro e eu fiz. Mas meu livro preferido ainda é Pilatos. Disparado.
 
Desde 2000, você é membro da Academia Brasileira de Letras. Qual é a importância hoje da ABL na sociedade brasileira?
 
Cony. No panorama cultural, a ABL exerce papel importante. A instituição oferece uma programação muito rica em termos de cinema, teatro, música, etc. Recentemente, promoveu um debate sobre gíria, ortografia e samba-enredo. Por outro lado, a ABL não deixa de ser uma instituição melancólica na medida em que é um jardim de infância às avessas. No jardim de infância, você tem futuro, mas não tem passado. Na ABL, você tem passado, mas o futuro é incerto. Quando entra lá, o acadêmico já não precisa provar mais nada para ninguém. Muitos deles continuam na ativa, como Nélida Piñon, João Ubaldo, Lygia Fagundes. O ideal é que cada um deles escrevesse uma nova obra-prima. Já imaginou? Seria ótimo... Pessoalmente, não acho que eu vá conseguir escrever outro Pilatos. Além disso, exerço o jornalismo. São quatro colunas por semana. Quando entrei na Folha, em 1983, eram oito. Não sobra tempo para mais nada. O Fellini costumava dizer: “Não tenho nada a dizer. Mas digo assim mesmo”. Concordo com ele. Também não tenho mais nada a escrever. Mas vou continuar escrevendo assim mesmo... (risos)
 
 
Fonte: http://www.saraivaconteudo.com.br/Entrevistas/Post/47884