O Estado de S.Paulo - O que aconteceu no Brasil virou Manchete
11/11/2008
 
Revista criada em 1952 por Adolpho Bloch, como mera conseqüência industrial, tem seu perfil e histórias contados em livro

 

Ubiratan Brasil

Saiu na imprensa, virou livro. Esse filão do mercado editorial, que bebe na fonte da mídia impressa e perpetua grandes reportagens, está mais forte do que nunca, com lançamentos de fôlego neste fim de ano. Aconteceu na Manchete, livro organizado por José Esmeraldo Gonçalves e J. A. Barros, com artigos de 16 jornalistas que participaram da revista, se vale da memória seletiva desses veteranos repórteres para a criação de um perfil curioso da publicação, cuja história, em muitos momentos, se confundiu com a do próprio País. A família que comandou esse império jornalístico também é tema de outro livro, Os Irmãos Karamabloch, em que Arnaldo Bloch, sobrinho-neto do patriarca Adolpho, narra a ascensão e a queda de seu clã. O livro acompanha os Blochs desde sua origem, na Ucrânia, há 200 anos, até a forçosa imigração para o Rio, em 1922, conseqüência do pesado período entre-guerras. "Decidi que não faria a biografia de um magnata da imprensa, mas retrataria o espírito de uma família de imigrantes", conta o autor. Em Deu no New York Times, portentoso volume que traz o explicativo subtítulo de ?O Brasil segundo a ótica de um repórter do jornal mais influente do mundo?, o polêmico Larry Rohter analisa o País de maneira franca e corajosa, falando de corrupção endêmica, racismo camuflado, mas também das experiências boas que teve em solo brasileiro. "É difícil extirpar a corrupção; é uma falha humana e existe em todas as partes do mundo, mas acho que a transparência é o primeiro passo para acabar com ela", diz ele, em entrevista ao Estado. Outro título em lançamento é O Olho da Rua - Uma Repórter em Busca da Literatura da Vida Real, que reúne as melhores reportagens de Eliane Brum, em 20 anos de profissão (11 deles no jornal Zero Hora, de Porto Alegre, e quase 9 na Revista Época). "Quando o entrevistado pára de falar, ele não pára de dizer - e é essa a melhor escuta do nosso trabalho", ensina a tarimbada repórter. Nesta edição do Caderno 2, conheça um pouco mais sobre cada um desses grandes livros, feitos com a adrenalina de quem vive "na mira da notícia".

Tornou-se uma tradição: às quartas-feiras, bancas do Rio e São Paulo eram religiosamente abarrotadas pela nova edição da revista Manchete, a mais bem editada em sua época. O público sabia o que ia encontrar: ao longo das páginas, matérias ditas mais sérias, como a eterna ameaça à floresta amazônica, conviviam tranqüilamente com assuntos mais amenos, como o casamento de alguma princesa. Entre 1952 e 2000, a revista criada por Adolpho Bloch tornou-se, em seu auge, referência por criar o mais ousado projeto gráfico da imprensa nacional. E por trazer, em cores vibrantes, o que nenhuma outra publicação editara.

É essa fase dourada (e também a mais pedregosa) o assunto de Aconteceu na Manchete (Desiderata, 448 págs. R$ 60), livro organizado por José Esmeraldo Gonçalves e J. A. Barros e com artigos de 16 jornalistas que participaram da revista. O título brinca com o famoso slogan da revista ("Aconteceu, virou manchete"). Como se trata de uma seleção de textos, o livro não pode ser classificado como uma biografia tradicional, em que todos os fatos relevantes são narrados cronologicamente. Mas a memória seletiva dos repórteres permitiu a criação de um perfil pitoresco da revista, cuja história, em muitos momentos, se confundiu com a do próprio País.

Bloch era descendente de uma família de judeus-ucranianos que chegou ao Brasil em 1922 sem nenhum tostão no bolso. Mas Joseph, o patriarca, logo se envolveu com o ramo de artes gráficas e construiu um império, como é bem relatado por Arnaldo Bloch, sobrinho-neto de Adolpho, em Os Irmãos Karamabloch.

Quando assumiu o controle da gráfica, Adolpho não escondia seu desconforto com a ociosidade das máquinas no fim de semana. Assim, para que elas trabalhassem, ele decidiu, em 1952, criar uma revista, interessado no sucesso da então campeã de vendas, O Cruzeiro, editada por Assis Chateaubriand, que conseguia na época a invejável marca de 400 mil exemplares. "A Manchete, portanto, foi uma conseqüência industrial, não causa pensada ou planejada", observam José Esmeraldo Gonçalves e Roberto Muggiati, no texto histórico da revista.

O primeiro número chegou às bancas no dia 23 de abril. Inspirada na francesa Paris Match, cuja marca principal eram as grandes fotos, Manchete recebeu esse nome por sugestão de um primo de Adolpho, o escritor e dramaturgo Pedro Bloch. Na primeira edição, trazia crônica de Carlos Drummond de Andrade ("O jornal está cheio de assuntos; aliás, o mal dos jornais é justamente esse: assunto demais") e uma curiosa polêmica envolvendo Pietro Maria Bardi, diretor do Masp, que considerava um quadro pintado pelo poeta Menotti Del Picchia como o melhor que já vira entre os brasileiros, superior a Portinari e Di Cavalcanti.

Até a dissolução do grupo Bloch, em 2000, a Manchete ganhou fama pela espaçosa cobertura fotográfica, especialmente do carnaval, quando sua edição especial se esgotava rapidamente. Ou por seus números extras, que também vendiam em poucas horas graças ao forte apelo - foi o caso da cobertura da primeira visita do papa João Paulo II ao Brasil, em 1980, garantindo tiragem recorde da revista.

Adolpho Bloch costumava dizer que o primeiro número não o agradara. "Só comecei a entender um pouco de jornalismo quando Getúlio Vargas se suicidou, em 1954", afirmava ele que, com o tempo, alimentou superstições curiosas. Como o de sustentar que foto com mulher de chapéu na capa não estimulava vendas. Ou de acreditar piamente na opinião dos donos de banca de jornais que, aliás, eram muitas vezes convidados a dar "aula de jornalismo" para a redação.

Amigos próximos também participavam da construção da revista. Bloch dedicava especial devoção a alguns, como Juscelino Kubitschek, Ivo Pitanguy, Oscar Niemeyer. Em seu texto para o livro, aliás, o arquiteto revela que Bloch contribuía para o Partido Comunista Brasileiro: "Ah, velho Adolpho, como lembro com satisfação o tempo em que o nosso amigo Marcos ia todo mês à sua tipografia receber a ajuda para o PCB, que a solidariedade política justificava!"

A fidelidade, para Adolpho, era essencial. Sua amizade com Kubitschek, por exemplo, rendeu um momento emotivo. Proibido pelo regime militar de conhecer Brasília, Juscelino Kubitschek foi obrigado a ficar no Rio de Janeiro, depois de voltar do exílio. Bloch, no entanto, contornou a situação. Dias antes, enviou o fotógrafo Walter Firmo à Capital Federal, onde nenhum momento deixou de ser registrado. Quando o ex-presidente já estava instalado em Copacabana, foi montada uma exibição de fotos por um projetor. E, à medida que descobria construções que não vira concluída, JK chorava copiosamente.

Aconteceu na Manchete traz ainda outras revelações saborosas. Em seus 33 anos empregado no grupo Bloch, o jornalista e escritor Carlos Heitor Cony exerceu diversas funções, nas diversas revistas da editora e também na TV Manchete, que entrou no ar em 1983. Algumas, porém, apesar de divertidas, contrariam as regras do bom jornalismo. No livro, ele revela que era o verdadeiro autor das previsões do "vidente indiano" Allan Richard Way que a Manchete publicava anualmente. Cony conta que, nos tempos da ditadura, Way era fruto da imaginação dos redatores da Manchete para facilitar o fechamento da edição da virada do ano. Em uma delas, ele previu o desmoronamento de uma das pilastras da Ponte Rio-Niterói. Por conta disso, o Ministério dos Transportes interditou a ponte por dois dias enquanto equipes de manutenção inspecionavam todos os pilotis.

Outras artimanhas, porém, eram bem-vindas. Como uma fotonovela sobre a vida de Pelé, publicada em setembro de 1959. No elenco, os personagens reais: além do próprio jogador, o pai Dondinho, a mãe Celeste, amigos como Coutinho. Nos créditos, Benedito Ruy Barbosa surge como autor da história.

Problemas no gerenciamento comercial culminaram com o colapso do grupo Bloch que resistiu até a Justiça lacrar o prédio onde funcionavam as redações, na Rua do Russel, no Rio. A última edição, de número 2.519, circulou em 26 de julho de 2000 e trouxe o ator Reynaldo Gianecchini na capa. O número seguinte chegou a ser preparado pela redação mas, com a agonia da empresa, não passou de uma edição virtual, figurando apenas nos computadores dos jornalistas. E são as imagens dessa derrocada de um grande império que ilustram os últimos capítulos do livro.