Site Objetiva - Cony comenta seu novo livro
25/05/2006
 
Cony comenta seu novo livro, o burlesco "O Adiantado da Hora"

Entrevista publicada no site da editora Objetiva

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No ano em que completa oito décadas de vida, Carlos Heitor Cony, um dos maiores escritores brasileiros contemporâneos, nos presenteia com um trabalho inédito. O Adiantado da Hora é um romance burlesco que conta a história de Zé Mário, um misto de contínuo, moço de recados e faxineiro que um dia recebe a missão de se instalar em Cabo Frio e acaba se envolvendo com uma trama intrincada e um elenco de personagens delirantes.

1. Em entrevista recente, o senhor afirmou: "o que me irrita na crítica é exigir coerência do romancista". Isso explica essa opção por um romance que brinca com a noção de verdade e mentira?

Sim. Me irrita tanto a critica literária como a crítica de alguns leitores que exigem essa coerência. Obras clássicas da literatura, como Dom Quixote e Moby Dick, não são coerentes e, nem por isso, deixaram de ser consideradas obras-primas da literatura mundial. O que seria coerência? Seria um padrão. Sou contra. Coloquei neste romance, de propósito, um personagem mitômano que, com 10 anos de idade, consegue entrar para a Ordem dos Velhos Jornalistas sem nunca ter sido jornalista, por exemplo. Gosto mesmo é da liberdade de escrever.

2. A história tem um ritmo ágil, humor absurdo e personagens delirantes, como o Seabra – que afirma ter tido relações sexuais com Madre Teresa de Calcutá. É um texto cheio de vigor e irreverência, produzido quando o senhor está completando 80 anos. A idade avançada dá ao escritor um novo fôlego criativo? Mantenho meu inquietação diante das coisas, não sou daqueles que acham que a vida é bela etc... Nesse sentido, continuo, sim, em busca da transgressão. Acho que este livro expressa o meu anarquismo e minha liberdade de criação.

3. Crônica ou romance, o que lhe dá mais prazer em escrever? Certamente o romance. A crônica é um gênero efêmero que serve no jornal ou revista mas não em livro. É feita e consumida naquele momento. Ao passo que a literatura tem a pretensão de atravessar o tempo. Quando se faz um romance ou um ensaio, há a pretensão justa de dialogar com pessoas que estão nascendo hoje. Machado de Assis ou Castro Alves não sabiam que eu nasceria anos depois, e eu os adoro. Quem faz literatura tem a pretensão de que o que se escreve naquele momento vai ser lido por pessoas que vierem bem depois. É um estilo que está fora do tempo. A ficção – e o romance – tem essa característica fundamental. A crônica dura o espaço de um jornal, é um gênero datado. Uma ou outra crônica, feita por um grande escritor, como Machado de Assis, extravasa um pouco essa regra. Mas, no fundo, a gente continua lendo o Machado de Assis cronista porque ele é o autor dos romances famosos que conhecemos, como Dom Casmurro, Memorial de Aires, Brás Cubas e Quincas Borba. Se ele não tivesse escrito esses quatro livros, as crônicas dele não seriam tão valorizadas.

 

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