Jornal do Brasil – Entrevista Caderno B
21/05/2006
 
Entrevista

Carlos Heitor Cony

Publicada em 21 de maio de 2006

www.jornaldobrasil.com.br

Carioca da gema, Carlos Heitor Cony nasceu no antigo Distrito Federal em 14 de março de 1926. Imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), é jornalista e autor de 16 romances, além de livros de crônicas, ensaios biográficos e adaptações de clássicos universais. Ganhou quatro vezes o Prêmio Jabuti, duas o de Livro do Ano e o Prêmio Machado de Assis da ABL.

“Sou um anarquista triste, comportado e inofensivo”























 

Pessimista de plantão que acredita no futuro e se diz anarquista, Carlos Heitor Cony odeia qualquer tipo de patrulha – seja ideológica, crítica ou, principalmente, da polícia do Exército. Seu novo romance, O adiantado da hora, que chega às livrarias por esses dias, é um reflexo dessa anarquia, também literária. Aos 18 anos, manifestou o desejo de ser padre e passou no exame de admissão para o Seminário Arquidiocesano de São José, no Rio Comprido, no dia 3 de março de 1938. O Seminário Arquidiocesano em que estudou por dez anos ficava exatamente onde hoje está a redação do Jornal do Brasil, na Rua Paulo de Frontin, 568, no Rio Comprido. Nesta quase entrevista, quase conversa entre amigos, em seu escritório no Largo do Machado, concedida a Álvaro Costa e Silva, subeditor do Caderno Idéias, e Sergio Martins, repórter do Caderno B, ele fala bem mais – Lula, violência e eleições – do que apenas do novo livro e dos delirantes personagens que o habitam: uma alemã libertina, um político trapalhão, uma morta ressuscitada, mulher de conhecido furor uterino, dois feiticeiros, que podem ser um, negros e bem-dotados, uma loura de belo fêmur. Ao fundo, a trama fantasiosa da fabricação de uma bomba atômica em Cabo Frio. É só ler para crer (ou não).

No livro que está lançando, O adiantado da hora, o senhor questiona a cobrança que fazem aos escritores de que eles sejam coerentes. O senhor fica irritado com isso?

– Foi proposital. Criticam, por exemplo, um endereço errado. O cálculo de uma distância. A localização de uma determinada área. Isso me irrita. Num dos livros mais pensados que fiz, Travessia, tinha um personagem que era o herói. Um líder guerrilheiro, que teve os culhões queimados com maçarico. Mais ou menos parecido com o Che Guevara. Impotente, quando bebe, tem voyeurismo. Pega uma menina lá qualquer e um negro para trepar com ela e fica olhando. Um jornalista não gostou do texto. Ficou revoltado com aquilo e veio a cobrança. Para mim, essa era a cena da violência sexual de um herói, que está do lado certo, está combatendo. Meu editor, o Joel Silveira, disse: “Este personagem não existe, um líder guerrilheiro não pode fazer isso!”. Por que não, se quero que ele faça? Não tem que cobrar coerência dos personagens. Dom Quixote é coerente? Não é. O que seria a coerência? Seria um padrão. Sou contra.

Essa polêmica voltou até mesmo quando do relançamento do livro?

– Voltou. Fiquei quieto durante 30 anos. Quando foi relançado, já era tudo passado. Falar mal do Partido Comunista já não era, digamos assim, politicamente incorreto. Naquele tempo não se podia falar mal do PC porque ele estava na luta, na trincheira, e eu não ia dar colher de chá para o adversário, que era o regime militar. Mas muitos anos depois, a gente já vivendo a democracia, ninguém era mais comunista e só existiam ex-comunistas, então eu fiz essa crítica. Desagradou a muita gente, a começar pelo meu editor, que era do partido.

O desaparecimento da alemã de coxas teutônicas, como se refere a ela no livro, e a visita da Brigitte Bardot a Cabo Frio e Búzios são lembranças de quando trabalhava na Manchete?

– É verdade. O desaparecimento da alemã estava ligado ao caso Doca Street...

Um personagem do livro, o Dr. Evandro, tem a ver com o jurista Evandro Lins e Silva?

– Lembra. Mas não era essa minha intenção. O Evandro Lins e Silva sempre foi uma pessoa honestíssima e jamais faria o que o Dr. Evandro faz no livro. Foi coincidência. Gosto mesmo é da liberdade de escrever e meu argumento é o de que a história da humanidade começou com uma serpente falando. Por que, então, não posso pôr uma vaca falando? A frase mais importante da história não foi dita por um homem nem uma mulher, mas por uma serpente. E está num livro importante, a Bíblia.

Uma tendência recente da literatura é a preocupação dos escritores com a pesquisa, em ter mais proximidade com o fato histórico. É uma exigência deles ou do leitor?

– A tendência hoje é escrever com base em muita pesquisa, muito dado histórico, muita transcrição. Isso acaba dando informações às vezes até desnecessárias, porque quebra a narrativa. Vou lançar dois livros este ano. O segundo se passa num hospital, numa unidade de tratamento semi-intensivo e escrevi mais ou menos como acho que seja. Não consultei ninguém. Se estiver errado, azar. É um livro encomendado e não tenho nada contra isso. Só os amadores se preocupam.

Muitos autores dizem que a maior inspiração deles é a encomenda. Com o senhor também é assim?

– Tem muita gente que pensava ou pensa assim. Mozart, por exemplo, o Oscar Niemayer. O Michelangelo. A Renascença italiana. O Euclides da Cunha não estava preocupado com Os sertões. Escreveu por encomenda do Estado de São Paulo. Ele era engenheiro e estava preocupado com as fronteiras entre Brasil, Bolívia e Peru.

Euclides da Cunha está citado no novo livro...

– Depois que escrevi, fiquei arrependido, porque passo a impressão de que ele entra na história como corno. Não devia falar isso. Foi falta de respeito.

Um dos personagens, o Seabra, afirma que teve um caso, numa única noite, em Bombaim, com uma freira e enfermeira que seria a Madre Teresa de Calcutá. O nome dela é citado no livro. Foi falta de respeito também?

– Sim, mas não vou mudar. O Seabra tem histórias e histórias. Uma delas é que possuía uma carteira de remido da Ordem dos Jornalistas, assinada pelo Austregésilo de Athayde. Agora, feitas as contas, ele teria 10 anos de idade. Ou seja, já era jornalista e já era velho com 10 anos. Liberdade criativa total.

Há um capítulo dedicado ao Seabra muito engraçado. Foi criado com base em fato verdadeiro?

– O caso da filha?

É. Quando ele não reconhece a filha e vai ao extremo de ficar louco, ou fingir, como estava fingindo, que ficara louco.

– Tenho um amigo, um parente, que estava com uma pequena num hotel, em Guarapari, onde se passa também o caso do Seabra. De repente, avistou a mulher, que tinha ido a Guarapari com a filha. Os dois casos são bem parecidos. O Seabra nega a filha. A mulher se aproxima e ele nega ser casado. A amante de 15 anos também chega e ele nega conhecê-la.

Negar até o fim, não é?

– E no livro tem até uma mulher que ressuscita.

Uma espécie de feitiçaria. Não seria o remédio que a Julieta toma na história de Shakespeare?

– Pode ser, mas não tem a rivalidade das famílias, apenas o episódio da morte. Aí você pergunta: “Por que você escreveu isso?”. Porque quis.

O senhor foi preso seis vezes. Uma delas foi numa manifestação na porta do Hotel Glória?

– Mas não foi a pior.

Quantos seqüestros?

– Tive duas prisões legais. As outras quatro considero seqüestro. Mesmo que tenha sido levado para o quartel da Polícia do Exército, na Tijuca. Numa das duas vezes legais, no tempo do Costa e Silva, quase fui processado com base na Lei de Segurança Nacional, o que poderia dar numa prisão de 30 anos. Meu advogado, Nelson Hungria, hoje ministro do Supremo Tribunal Federal, descaracterizou e passou para a Lei de Imprensa. Fui condenado a três meses. Isso foi em 1964 ou 1965 e havia ainda um arremedo de Justiça. O regime fechou mesmo com o AI-5, no fim de 1968.

Houve também um seqüestro não político?

– Houve. Tinha acabado de deixar minha secretária na Lagoa quando dois homens entraram no carro. Um deles assumiu o volante. E ficamos rodando pelo Rio. O outro foi sentado atrás, me apontando o revólver. Na Ilha do Governador, eles iam se encontrar com outros, que acabaram não chegando. Me deixaram numa rua escura e dobraram a esquina. Caminhei em direção a uma luz, que achei ser a Avenida Brasil. E realmente era. Cheguei num posto de gasolina e pedi ajuda.

Este assunto foi levantado porque o senhor, ontem (terça-feira), escreveu uma crônica forte na Folha sobre o problema da violência lá em São Paulo. Nela o senhor fala da total falência da ordem diante do crime organizado.

– Foi bom você lembrar a crônica. Pelo seguinte: o carro realmente foi roubado. Nessa época, a Manchete estava fazendo um trabalho para o governador Brizola e ele soube. Telefonou para mim e disse que mandaria o secretário de Segurança, na época o Nilo Batista, conversar comigo. O Nilo até brincou: “Você foi sorteado?”. Depois disse que mandaria o delegado de Roubos e Furtos para conversar. O delegado chegou com um desenhista para fazer o retrato-falado dos bandidos, mas não dava, porque os dois estavam mascarados. O delegado, então, disse: “Olha, Cony, se o carro foi levado para o Paraguai, devolvo em um mês. Se foi para o desmanche, adeus, procure o seguro”. Passado um mês, recebi o dinheiro do seguro. Esqueci. Três ou quatro meses depois, lendo o Jornal do Brasil, vi uma reportagem que dizia que o delegado da Roubos e Furtos fora preso e que era dono de três desmanches na Avenida Brasil.

Cumplicidade entre policial e ladrão?

– Claro. Mas, neste momento, o que há em São Paulo é uma briga feia. Morreram muitos policiais e bandidos. Mas o tecido conjuntivo, quer dizer, a ligação entre eles, a promiscuidade, é óbvia.

Corremos o mesmo risco aqui no Rio?

– Aqui no Rio é difícil centralizar, porque as facções estão divididas. O inimigo não é a polícia. O principal inimigo de uma facção é outra facção. Mas se conseguirem um denominador comum, em torno de um programa mínimo, se forem inteligentes, como em São Paulo, vão concluir que não adianta ficar brigando entre si e se unirão contra a polícia. Foi isso que fizeram em São Paulo. No Rio, os bandidos são organizados, mas não são centralizados como em São Paulo.

O senhor acha que isso pode ter algum reflexo nas eleições de outubro?

– Não creio. Evidentemente que a turma mais pesada da oposição vai tentar estender o episódio ao Lula.

Por que acha que todos os episódios dos últimos meses arranham o Lula mas não o quebram?

– O Lula é uma grife para o povo. Depois de quatro derrotas eleitorais, de uma vitória e da exposição na mídia, acho difícil alguém vencê-lo. Poucos tiveram tanta exposição como ele. Inclusive usando a televisão como ele usa. Além disso, o Lula tem uma biografia que atinge bem todas as classes. É difícil desmanchar o mito Lula, mesmo sendo ele despreparado para a Presidência. Quando digo que é despreparado não estou falando como um elitista. Não é nesse sentido. O que quero dizer é que ele nunca deixou de ser um dirigente sindical e age assim como presidente. Ou seja, procura não se queimar. É evidente que o Lula sabia de tudo. Era beneficiário. O bilhão de dólares que eles queriam obter era para manter o Lula no poder. Agride meu bom senso. Mas provar isso é difícil.

A luta do José Dirceu sempre foi para manter o Lula no poder. Inclusive conversou, e muito, com o pessoal da embaixada americana.

– Se o José Dirceu disser que deu ao Lula tanto em dinheiro, se disser que o Lula sabia de tudo, é diferente. A reeleição do Lula é um projeto do PT, que não tem um nome para substituí-lo. Aliás, nenhum partido tem um nome com essa biografia popular, que causa impacto junto às classes C e D, mesmo com tudo o que houve.

Mudando um pouco de assunto, o senhor, que foi seminarista, teve curiosidade de ler O código Da Vinci?

– Não pretendo ler. Conheço mais ou menos o assunto. O código Da Vinci se baseia na história de que Cristo foi casado com Maria Madalena. A pergunta que eu faço é a seguinte: e daí?

O que acha do livro O adiantado da hora?

– Me deu muito prazer escrever. Fui o primeiro a rir das minhas histórias. Se os leitores gostarem, ótimo. Se não gostarem, azar deles. O livro expressa todo o meu anarquismo. Quando tomei posse na Academia, disse que não poderia ser de esquerda porque não tenho disciplina. Não poderia ser de direita porque não tenho convicções fortes. Também não poderia ser de centro, porque o centro é oportunista. O que sobra é ser anarquista. Um anarquista comportado, triste e inofensivo.

O livro fala até de uma bomba atômica que estaria sendo feita em Cabo Frio.

– O Dr. Evandro, que não é o Evandro Lins e Silva, manda um camarada lá para a região pesquisar a suposta fabricação de uma bomba atômica em Cabo Frio. Quando o sujeito chega, encontra aquela fauna: uma mulher que ressuscitou, uma alemã que desapareceu, dois feiticeiros que podem ser apenas um. E por aí vai. Liberdade total, como deve ser toda ficção.

No livro que está lançando, O adiantado da hora, o senhor questiona a cobrança que fazem aos escritores de que eles sejam coerentes. O senhor fica irritado com isso?

– Foi proposital. Criticam, por exemplo, um endereço errado. O cálculo de uma distância. A localização de uma determinada área. Isso me irrita. Num dos livros mais pensados que fiz, Travessia, tinha um personagem que era o herói. Um líder guerrilheiro, que teve os culhões queimados com maçarico. Mais ou menos parecido com o Che Guevara. Impotente, quando bebe, tem voyeurismo. Pega uma menina lá qualquer e um negro para trepar com ela e fica olhando. Um jornalista não gostou do texto. Ficou revoltado com aquilo e veio a cobrança. Para mim, essa era a cena da violência sexual de um herói, que está do lado certo, está combatendo. Meu editor, o Joel Silveira, disse: “Este personagem não existe, um líder guerrilheiro não pode fazer isso!”. Por que não, se quero que ele faça? Não tem que cobrar coerência dos personagens. Dom Quixote é coerente? Não é. O que seria a coerência? Seria um padrão. Sou contra.

Essa polêmica voltou até mesmo quando do relançamento do livro?

– Voltou. Fiquei quieto durante 30 anos. Quando foi relançado, já era tudo passado. Falar mal do Partido Comunista já não era, digamos assim, politicamente incorreto. Naquele tempo não se podia falar mal do PC porque ele estava na luta, na trincheira, e eu não ia dar colher de chá para o adversário, que era o regime militar. Mas muitos anos depois, a gente já vivendo a democracia, ninguém era mais comunista e só existiam ex-comunistas, então eu fiz essa crítica. Desagradou a muita gente, a começar pelo meu editor, que era do partido.

O desaparecimento da alemã de coxas teutônicas, como se refere a ela no livro, e a visita da Brigitte Bardot a Cabo Frio e Búzios são lembranças de quando trabalhava na Manchete?

– É verdade. O desaparecimento da alemã estava ligado ao caso Doca Street...

Um personagem do livro, o Dr. Evandro, tem a ver com o jurista Evandro Lins e Silva?

– Lembra. Mas não era essa minha intenção. O Evandro Lins e Silva sempre foi uma pessoa honestíssima e jamais faria o que o Dr. Evandro faz no livro. Foi coincidência. Gosto mesmo é da liberdade de escrever e meu argumento é o de que a história da humanidade começou com uma serpente falando. Por que, então, não posso pôr uma vaca falando? A frase mais importante da história não foi dita por um homem nem uma mulher, mas por uma serpente. E está num livro importante, a Bíblia.

Uma tendência recente da literatura é a preocupação dos escritores com a pesquisa, em ter mais proximidade com o fato histórico. É uma exigência deles ou do leitor?

– A tendência hoje é escrever com base em muita pesquisa, muito dado histórico, muita transcrição. Isso acaba dando informações às vezes até desnecessárias, porque quebra a narrativa. Vou lançar dois livros este ano. O segundo se passa num hospital, numa unidade de tratamento semi-intensivo e escrevi mais ou menos como acho que seja. Não consultei ninguém. Se estiver errado, azar. É um livro encomendado e não tenho nada contra isso. Só os amadores se preocupam.

Muitos autores dizem que a maior inspiração deles é a encomenda. Com o senhor também é assim?

– Tem muita gente que pensava ou pensa assim. Mozart, por exemplo, o Oscar Niemayer. O Michelangelo. A Renascença italiana. O Euclides da Cunha não estava preocupado com Os sertões. Escreveu por encomenda do Estado de São Paulo. Ele era engenheiro e estava preocupado com as fronteiras entre Brasil, Bolívia e Peru.

Euclides da Cunha está citado no novo livro...

– Depois que escrevi, fiquei arrependido, porque passo a impressão de que ele entra na história como corno. Não devia falar isso. Foi falta de respeito.

Um dos personagens, o Seabra, afirma que teve um caso, numa única noite, em Bombaim, com uma freira e enfermeira que seria a Madre Teresa de Calcutá. O nome dela é citado no livro. Foi falta de respeito também?

– Sim, mas não vou mudar. O Seabra tem histórias e histórias. Uma delas é que possuía uma carteira de remido da Ordem dos Jornalistas, assinada pelo Austregésilo de Athayde. Agora, feitas as contas, ele teria 10 anos de idade. Ou seja, já era jornalista e já era velho com 10 anos. Liberdade criativa total.

Há um capítulo dedicado ao Seabra muito engraçado. Foi criado com base em fato verdadeiro?

– O caso da filha?

É. Quando ele não reconhece a filha e vai ao extremo de ficar louco, ou fingir, como estava fingindo, que ficara louco.

– Tenho um amigo, um parente, que estava com uma pequena num hotel, em Guarapari, onde se passa também o caso do Seabra. De repente, avistou a mulher, que tinha ido a Guarapari com a filha. Os dois casos são bem parecidos. O Seabra nega a filha. A mulher se aproxima e ele nega ser casado. A amante de 15 anos também chega e ele nega conhecê-la.

Negar até o fim, não é?

– E no livro tem até uma mulher que ressuscita.

Uma espécie de feitiçaria. Não seria o remédio que a Julieta toma na história de Shakespeare?

– Pode ser, mas não tem a rivalidade das famílias, apenas o episódio da morte. Aí você pergunta: “Por que você escreveu isso?”. Porque quis.

O senhor foi preso seis vezes. Uma delas foi numa manifestação na porta do Hotel Glória?

– Mas não foi a pior.

Quantos seqüestros?

– Tive duas prisões legais. As outras quatro considero seqüestro. Mesmo que tenha sido levado para o quartel da Polícia do Exército, na Tijuca. Numa das duas vezes legais, no tempo do Costa e Silva, quase fui processado com base na Lei de Segurança Nacional, o que poderia dar numa prisão de 30 anos. Meu advogado, Nelson Hungria, hoje ministro do Supremo Tribunal Federal, descaracterizou e passou para a Lei de Imprensa. Fui condenado a três meses. Isso foi em 1964 ou 1965 e havia ainda um arremedo de Justiça. O regime fechou mesmo com o AI-5, no fim de 1968.

Houve também um seqüestro não político?

– Houve. Tinha acabado de deixar minha secretária na Lagoa quando dois homens entraram no carro. Um deles assumiu o volante. E ficamos rodando pelo Rio. O outro foi sentado atrás, me apontando o revólver. Na Ilha do Governador, eles iam se encontrar com outros, que acabaram não chegando. Me deixaram numa rua escura e dobraram a esquina. Caminhei em direção a uma luz, que achei ser a Avenida Brasil. E realmente era. Cheguei num posto de gasolina e pedi ajuda.

Este assunto foi levantado porque o senhor, ontem (terça-feira), escreveu uma crônica forte na Folha sobre o problema da violência lá em São Paulo. Nela o senhor fala da total falência da ordem diante do crime organizado.

– Foi bom você lembrar a crônica. Pelo seguinte: o carro realmente foi roubado. Nessa época, a Manchete estava fazendo um trabalho para o governador Brizola e ele soube. Telefonou para mim e disse que mandaria o secretário de Segurança, na época o Nilo Batista, conversar comigo. O Nilo até brincou: “Você foi sorteado?”. Depois disse que mandaria o delegado de Roubos e Furtos para conversar. O delegado chegou com um desenhista para fazer o retrato-falado dos bandidos, mas não dava, porque os dois estavam mascarados. O delegado, então, disse: “Olha, Cony, se o carro foi levado para o Paraguai, devolvo em um mês. Se foi para o desmanche, adeus, procure o seguro”. Passado um mês, recebi o dinheiro do seguro. Esqueci. Três ou quatro meses depois, lendo o Jornal do Brasil, vi uma reportagem que dizia que o delegado da Roubos e Furtos fora preso e que era dono de três desmanches na Avenida Brasil.

Cumplicidade entre policial e ladrão?

– Claro. Mas, neste momento, o que há em São Paulo é uma briga feia. Morreram muitos policiais e bandidos. Mas o tecido conjuntivo, quer dizer, a ligação entre eles, a promiscuidade, é óbvia.

Corremos o mesmo risco aqui no Rio?

– Aqui no Rio é difícil centralizar, porque as facções estão divididas. O inimigo não é a polícia. O principal inimigo de uma facção é outra facção. Mas se conseguirem um denominador comum, em torno de um programa mínimo, se forem inteligentes, como em São Paulo, vão concluir que não adianta ficar brigando entre si e se unirão contra a polícia. Foi isso que fizeram em São Paulo. No Rio, os bandidos são organizados, mas não são centralizados como em São Paulo.

O senhor acha que isso pode ter algum reflexo nas eleições de outubro?

– Não creio. Evidentemente que a turma mais pesada da oposição vai tentar estender o episódio ao Lula.

Por que acha que todos os episódios dos últimos meses arranham o Lula mas não o quebram?

– O Lula é uma grife para o povo. Depois de quatro derrotas eleitorais, de uma vitória e da exposição na mídia, acho difícil alguém vencê-lo. Poucos tiveram tanta exposição como ele. Inclusive usando a televisão como ele usa. Além disso, o Lula tem uma biografia que atinge bem todas as classes. É difícil desmanchar o mito Lula, mesmo sendo ele despreparado para a Presidência. Quando digo que é despreparado não estou falando como um elitista. Não é nesse sentido. O que quero dizer é que ele nunca deixou de ser um dirigente sindical e age assim como presidente. Ou seja, procura não se queimar. É evidente que o Lula sabia de tudo. Era beneficiário. O bilhão de dólares que eles queriam obter era para manter o Lula no poder. Agride meu bom senso. Mas provar isso é difícil.

A luta do José Dirceu sempre foi para manter o Lula no poder. Inclusive conversou, e muito, com o pessoal da embaixada americana.

– Se o José Dirceu disser que deu ao Lula tanto em dinheiro, se disser que o Lula sabia de tudo, é diferente. A reeleição do Lula é um projeto do PT, que não tem um nome para substituí-lo. Aliás, nenhum partido tem um nome com essa biografia popular, que causa impacto junto às classes C e D, mesmo com tudo o que houve.

Mudando um pouco de assunto, o senhor, que foi seminarista, teve curiosidade de ler O código Da Vinci?

– Não pretendo ler. Conheço mais ou menos o assunto. O código Da Vinci se baseia na história de que Cristo foi casado com Maria Madalena. A pergunta que eu faço é a seguinte: e daí?

O que acha do livro O adiantado da hora?

– Me deu muito prazer escrever. Fui o primeiro a rir das minhas histórias. Se os leitores gostarem, ótimo. Se não gostarem, azar deles. O livro expressa todo o meu anarquismo. Quando tomei posse na Academia, disse que não poderia ser de esquerda porque não tenho disciplina. Não poderia ser de direita porque não tenho convicções fortes. Também não poderia ser de centro, porque o centro é oportunista. O que sobra é ser anarquista. Um anarquista comportado, triste e inofensivo.

O livro fala até de uma bomba atômica que estaria sendo feita em Cabo Frio.

– O Dr. Evandro, que não é o Evandro Lins e Silva, manda um camarada lá para a região pesquisar a suposta fabricação de uma bomba atômica em Cabo Frio. Quando o sujeito chega, encontra aquela fauna: uma mulher que ressuscitou, uma alemã que desapareceu, dois feiticeiros que podem ser apenas um. E por aí vai. Liberdade total, como deve ser toda ficção.