Pilatos


capa da Alfaguara
ISBN:9788560281879
Informações sobre a obra
Quarta capa
Orelha
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Informações sobre a obra

Nono romance de Carlos Heitor Cony, Pilatos é um dos livros mais importantes na obra do autor e, também, um de seus preferidos. Tornou-se uma obra emblemática por fazer uma sátira incisiva sobre a situação política e a contestação no Brasil durante os Anos de Chumbo. “É a minha visão do mundo, e acho que vou morrer com ela”, disse o escritor, que, após tê-lo publicado, sentiu-se tão satisfeito com o resultado da obra que decidiu não mais escrever.
 
O ano era o de 1974. Cony passou então 23 anos sem publicar nenhum outro romance, até sua volta à literatura com o consagrado Quase memória, de 1995. Pilatos conta a epopéia às avessas de um homem que, após passar por uma série de amarguras na vida, é vítima de um atropelamento e vaga pelas ruas do Rio de Janeiro carregando seu órgão sexual mutilado num vidro de compota. Em seu caminho, pontilhado de aventuras picarescas, encontrará os personagens mais bizarros do submundo da cidade.
 
“Sei que a história existe, está escrita e inscrita em minha carne”, diz o memorável personagem de Cony ao narrar suas absurdas aventuras Vagando numa jornada sem propósito, pontilham sua história bêbados, beatas, fascistas, mendigos, cineastas, sacristães, donos de bares infectos e policiais truculentos, cada qual tentando ganhar a vida à sua maneira. E, ao seu lado, vai o leitor, surpreso com cada novo desdobramento e cada inesperado personagem da considerada obra-prima de Cony.
 
Editora: Alfaguara
ISBN: 9788560281879
Ano: 2009
Edição: 1
Número de páginas: 224

Lançamento: 1973 - Civilização Brasileira

Em 2001 foi relançado pela A Companhia das Letras e em 2009 pela Alfaguara.

Quarta capa

Otto Maria Carpeaux recomenda

PILATOS

PILATOS é originalíssimo. Não tem semelhança com nenhuma outra obra da literatura brasileira. Talvez Carlos Heitor Cony fosse predestinado para escrever assim. Pois certos germes de PILATOS já se encontram em obras suas, anteriores. Mas esta vez, também é singular o estilo em que Cony escreveu. É um estilo altamente pessoal. Só podia ser ele. Mas o resultado, a obra, tem importância para todos nós. A leitura provoca gargalhadas. São inúmeras as situações e trechos de humarismo abundante e irresistível (só preciso lembrar a cena em que o sujeito, sendo obrigado a masturbar-se, apenas encontra, para sua animação, uma revista de turfe). Mas tem-se o direito de rir, de somente rir, desses episódios? Acho que não. Um doutor da Igreja disse que o "sábio só ri tremendo"; e "sábios", sabedores de nossa situação, somos todos nós. Que nos resta? Chorar? Não. Um outro, que não era doutor nem da Igreja, disse muito bem: "Je me presse de rire de tout, de peur d´être obligé d´en pleurer". O humor abundante de PILATOS está cheio de símbolos, ou então, é mesmo o símbolo de uma tristeza desconsolada. Quem tiver lido PILATOS estará melhor informado: sentindo toda a infelicidade de nossa condição humana e desumana. E que se pode esperar mais de uma obra de arte?

Orelha

A Advertência de Pilatos

Para as pessoas preconceituosas, Pilatos é, sem dúvida, o texto mais insólito e agressivo que CARLOS HEITOR CONY produziu até agora.

CONY, ninguém o ignora, sempre fecundou os seus escritos - de ficção ou não - de substancial conteúdo crítico e polêmico, questionando o homem, as idéias, as sociedades e instituições.

Pois continua sendo assim em Pilatos. Aqui, pela via do escatológico, narra uma terrível história dos tempos modernos - história em que coloca, antes de mais nada, o drama do indivíduo e o da liberdade. O personagem castrado deste romance é um símbolo. Também o são muitas outras figuras que o povoam.

Para contar essa dilacerante e, em tantos passos, aparentemente jocosa história, recorreu CONY à boa técnica das grandes narrações do passado, inclusive a de introduzir pequenas estórias no texto principal, como é freqüente no D. Quixote ou nas Mil e Uma Noites.

Nada de introspecções abissais, de sutis análises psicológicas, de fatigantes abordagens psicoanalíticas. O que ao ficionista importa é a história em si mesma. São os fatos, os pormenores, o acúmulo de acontecimentos. Tal como ocorre em Petrônio, Boccacio, Rabelais e Cervantes - para lembrar algumas balizas ilustres, à semelhança desses mestres, o escritor brasileiro vale-se de total desinibição de linguagem - a mesma desinibição que está em Gil Vicente, nas anedotas que o povo conta, nas façanhas de Bocage ou de Malazarte.

Num certo sentido, pode-se dizer que CARLOS HEITOR CONY também faz, em Pilatos, uma crítica da arte narrativa em crise. Não é à-toa que um personagem do livro garante que "a literatura só se salvará se voltar às suas origens: o folhetim, a aventura, a escatologia". Pilatos é bem esse retorno. Mas um retorno crítico. Modernizado.

Por tudo isso, Pilatos não é livro para pessoas de mentalidade acanhada, de vôo curto e rasteiro, amarradas à letra do texto. Pelo contrário, este romance pede inteligências abertas, capazes de descobrirem, em meio à falação desabrida, ao grotesto à la Goya ou à mordacidade à Daumier o quanto há de humano, sofrido e pungente nessa parábola escrita ants com sangue e lágrimas do que com riso.

Mas Pilatos não é romance de derrota e amargor. É antes - e principalmente - uma advertência. Uma advertência aos que, julgando-se felizes, são apenas desinformados.

MÁRIO DA SILVA BRITO.

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