Chaplin e outros ensaios


Informações sobre a obra
Texto de apresentação

Informações sobre a obra

O amigo Paulo Francis dizia que Carlos Heitor Cony “é um artista, (...) e conhecê-lo enriquece a minha vida”. Jornalista, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras, Cony escreveu dezenas de livros, entre eles 17 romances, e ganhou muitos prêmios (quatro vezes o Jabuti, três vezes o Livro do Ano, Prêmio Nacional Nestlé, Prêmio Machado de Assis etc.). Na nota introdutória a essa coletânea – onde estão reunidos 19 textos publicados em jornais e revistas, ou como prefácios, a partir de 1959 – o autor explica que buscou a diversidade: o maior ensaio, sobre Chaplin, foi feito a pedido de Reynaldo Jardim, que o publicou ao longo de várias semanas no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil. Por sugestão de Paulo Francis, que colaborava com Ênio Silveira na Civilização Brasileira, Cony produziu os artigos sobre Chardin, Robbe-Grillet, Fellini e Tomás de Aquino. Já o estudo sobre Guimarães Rosa é fruto de uma palestra na ABL, enquanto outros – entre os quais os sobre Goethe, Victor Hugo e Suetônio – serviram de prefácio a diferentes edições nos últimos 50 anos. Machado de Assis, Lima Barreto e Manuel Antônio de Almeida compõem o ensaio intitulado “Romance carioca”; e se Álvares de Azevedo e Rachel de Queiroz completam o quadro de autores brasileiros, entre os estrangeiros encontram-se ainda Gorki, Mark Twain e Karol Wojtyla. Para o poeta e crítico literário Antonio Carlos Secchin, autor do texto de apresentação do livro, “o que caracteriza o ensaísta Cony, paralelo à sua inteligência, é a independência, o desassombro em ficar à contracorrente do pensamento majoritário”.

Texto de apresentação por Antonio Carlos Secchin

Meu primeiro Cony foi A verdade de cada dia, lido em modesta edição de bolso, em 1963. Desde então me tornei frequentador assíduo de sua prosa, seja no terreno da ficção – em que, entre outros, nos legou Pilatos (1974), uma das raras obras-primas do romance brasileiro do século XX – seja no campo das crônicas, com suas incisivas, satíricas ou líricas incursões à vida e aos (maus) costumes do país.
Agora, outra faceta de sua criatividade se destaca neste Chaplin e outros ensaios. Se a excelência da prosa literária se mantém no nível a que nos habituamos no romance e na crônica, o ensaísmo desvela a erudição de Cony; mas, ressalte-se, uma erudição ortodoxa, nada acadêmica, que não escamoteia o amor (e eventuais atritos) frente aos objetos de estudo. Numa gama extensa de autores e temas, sobreleva a figura de Chaplin/Carlitos – que, aliás, foi igualmente contemplado na primeira publicação do autor: a plaquete Chaplin – Tortura e glória de um gênio, de 1956.
É notável a acuidade interpretativa de Carlos Heitor Cony no enlace vida/obra, e no zelo com que assinala, de um lado, não ser possível explicar a obra pela vida; e, de outro, ser impossível dissociá-las. Da literatura latina à ficção de Rachel de Queiroz, nada parece escapar de seu desejo de conhecer, e de sua capacidade de propagar tal desejo – o que, afinal de contas, deveria sempre constituir-se num dos fundamentos do ensaísmo.
Partimos de Londres e desembarcamos em Roma, nas versões sem (Fellini) ou com incêndio (Nero), tendo direito a escalas no Cosme Velho e no Hospício da Praia Vermelha, entre outras. Transitamos das excelentes observações sobre o romance carioca (a partir do trio Manuel Antônio de Almeida/ Machado de Assis/Lima Barreto) às sutis considerações acerca da poética de Álvares de Azevedo. Pensadores e poetas em baixa no mercado de ações literário tornam-se alvo de criteriosa reavaliação (Teilhard de Chardin, Victor Hugo).
O que caracteriza o ensaísta Cony, paralelo à sua inteligência, é a independência, o desassombro em ficar à contracorrente do pensamento majoritário. No endosso de sua feroz individualidade, não seria arbitrário evocar o – também crítico e solitário – personagem Carlitos. Mas se na visão do poeta Drummond os sapatos e o bigode de Carlitos caminham numa estrada de pó e de esperança, na visão desencantada de Cony a estrada humana comporta muito pó, e quase nenhuma esperança. Por isso tanto nos comove, e tão pouco nos consola.
O que mais demandar de um escritor senão devolver-nos à nossa própria precariedade? É a esse passeio radical através da literatura alheia que nos convida Chaplin e outros ensaios.